HOMENAGEM


Homenagem



Aos quatro ou
cinco anos, eu era uma garotinha que já gostava de fazer versos. Parece que eu
encerrava as minhas “apresentações” sempre com a mesma frase: bonecas no meu
coração. Tudo a ver com a minha paixão do momento...
Ao longo de
minha vida ouvi meu pai repetir esta estória. Aliás, sempre com muita alegria e
orgulho da “precocidade” da primogênita.
Por isso, o
título do blog é uma homenagem a meu pai, Humberto Narbot.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Tarde de Verão (Crônica)


 

 

A tarde corre tranqüila e quente. O silêncio é perturbado, às vezes, pelo cantar de um passarinho.

É a hora em que as crianças maiores vão à escola, e as menores dormem.

Agradecendo a Deus o oportuno silêncio, escondo-me atrás dos livros para estudar.

O sol espalha o calor de Verão, a preguiça se instala comodamente no corpo das pessoas, e as moscas, cansadas de tanto calor, penetram em imaculadas residências, pondo em alvoroço exemplares donas-de-casa.

E é então que o silêncio se quebra pela algazarra de mulheres e crianças que, com panos e bombas de inseticidas, se lançam furiosamente ao combate às moscas. Todos, zangados por verem seu repouso perturbado, querem vingar-se, e para tanto armam-se de ódio e tratam de liquidar o invasor. E, não contentes em matá-lo, fazem questão de proclamar a vitória aos gritos.

Eu, sufocando num quarto fechado para livrar-me das indesejáveis moscas, tento concentrar-me num horrível ponto de Física.
Impossível.

Agora, somam-se ao calor os ruídos da luta recém-travada nas vizinhanças.

Tento resistir, esforço-me por enfiar na cabeça as fórmulas complicadas, mas é em vão. Por fim, rendo-me.

Abro a vidraça, na esperança de que um pouco de ar reanime meu espírito cansado e, ao fazê-lo, esqueço-me do inimigo. Que infelizmente nota o meu descuido e, enxotado por todos os demais, zumbindo tristemente pelos mortos, invade sem cerimônias o meu sossegado quarto.

E eu também, cedendo a instintos sanguinários, dou início à luta. Após a qual o campo de batalha fica coberto de cacos de vidro, cadáveres dos “indesejáveis” e um “pacote” que, cinco minutos antes, era uma garota que tentava estudar Física numa tarde de Verão.

 

São Paulo – 1962

 

 

6 comentários:

  1. Ai, Lu! Pior do que o calor, são as moscas e mosquitos! Aqui em casa, eles nos devoram durante a noite... e já estão acostumados àqueles remédios de colocar na tomada, que só nos deixam enjoados. Ando colocando repelente antes de dormir. Mas eles também já estão se acostumando com o cheiro. Não é mole. Sugestão: por que você não coloca o ícone 'seguidores?' Fica mais fácil, assim a gente pode segui-la saber das suas postagens e vir aqui.É só ir nas configurações e procurar em 'gadgets.'

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    1. Ana, segui sua sugestão, e coloquei os seguidores. Obrigada pelo incentivo.

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  2. Uma crônica de ouro, de uma época dourada. Parabéns, Lucia.

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    1. Márcio, há momentos em que a saudade daqueles dias bate forte. Mas comigo, pelo menos, a vida não foi madrasta, e estou curtindo bem a terceira idade, fazendo coisas que antes não tinha tempo de fazer. Obrigada pelas leituras. Abraços Lu

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  3. Muito legal! O blog é todo seu?

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    1. Sim, xará, este blog é todo meu. Depois de velha saí do armário e resolvi publicar o que escrevo. Obrigada pelas leituras.

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